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Mulheres indígenas assumem papel central na proteção da Amazônia em evento no Equador

Lideranças indígenas ressaltam importância da defesa territorial e financiamento para conservação em evento no Equador

05/09/2026 às 14:12
Por: Redação

Mulheres indígenas de diferentes povos amazônicos destacaram seu papel vital na defesa dos corpos e territórios durante a última edição do TEDxAmazônia, realizada pela primeira vez fora do Brasil, nas cidades equatorianas de Banos e Puyos. A anciã do povo Shuar, Catalina Chumpi, liderou um manifesto que concluiu o evento, pedindo às águas das cachoeiras força para suas "netas" protegerem os territórios ancestrais.

 

O evento contou com a participação de lideranças indígenas que ressaltaram a importância das populações amazônicas para a preservação do bioma e a necessidade de garantir seu protagonismo. Domingos Peas, líder do povo Shuar, solicitou um minuto de silêncio em memória das defensoras e defensores da natureza assassinados em represália ao trabalho de proteção ambiental, destacando a vulnerabilidade dos povos indígenas na América Latina, região com maior número de mortes de ativistas ambientais segundo relatório da ONG Global Witness.

 

Patricia Gualinga, líder do povo Kichwa, reforçou a importância de reconhecer legalmente a cosmovisão indígena que vê a natureza como sujeito de direitos, não apenas como recurso. Ela ressaltou que a "selva viva" possui memória, alma e direitos próprios, conceito que se materializou na Constituição do Equador em 2008, tornando-o o primeiro país a atribuir direitos à natureza equivalentes aos dos seres humanos. Em 2024, o país proibiu a mineração na Floresta Los Cedros com base nesses direitos.

 

Além do Equador, outros países adotaram medidas semelhantes, como a Colômbia, que reconheceu os direitos do Rio Atrato, e o Peru, que fez o mesmo com o Rio Maranhão. No entanto, Patricia destacou que é fundamental avançar para o reconhecimento de territórios inteiros, não apenas pontos específicos como rios e florestas, e enfatizou que a aplicação prática dessas garantias requer políticas públicas eficazes, transformações econômicas globais e instituições firmes.

 

Diana Chavez, diretora de Comunas, Povos e Nacionalidades do Fundo do Biocorredor Amazônico, reivindicou maior acesso e poder de decisão dos povos indígenas sobre fundos financeiros destinados à conservação. Ela citou o exemplo do Equador, onde um fundo abastecido por recursos da mineração e do petróleo existe há seis anos, mas os indígenas enfrentam barreiras burocráticas e administrativas para acessar esses recursos diretamente, pois o fundo foi criado para eles, mas sem sua participação na concepção.

 

"Quando falamos da participação indígena no financiamento climático, normalmente se fala de consulta, de reunião. Mas isso não é suficiente. A consulta te coloca na sala de espera, a governança te coloca na mesa de decisão", ressaltou Diana.

 

Ela também destacou que menos de 1% do financiamento global para ações contra as mudanças climáticas chega diretamente aos povos indígenas, reforçando a necessidade de mecanismos que facilitem o acesso aos recursos em parceria com as comunidades.

 

Patricia Gualinga pontuou que, mesmo sem recursos financeiros, as populações indígenas vêm protegendo a Amazônia com seus corpos e vidas, sendo as arquitetas da conservação da floresta, que permanece quase intacta graças à filosofia indígena de convivência igualitária com a natureza, que não se opõe ao desenvolvimento sustentável das comunidades.

 

Um exemplo concreto dessa harmonia entre conservação e desenvolvimento foi apresentado por Esthela Noteno, administradora Kichwa que relatou sua experiência na comunidade de Sucumbíos, onde a contaminação ambiental causada pela indústria petrolífera reduziu a abundância local e forçou moradores, em situação de pobreza e sem acesso a serviços básicos, a arrendar terras para monocultura de taro, tubérculo estrangeiro da família do inhame.

 

"Não continuaram arrendando porque odeiam seu território, e sim porque não tinham outra oportunidade de gerar renda para alimentar seus filhos", explicou Esthela.

 

Durante a pandemia de covid-19, Esthela relembrou as guayusadas realizadas em sua família, momentos em que os idosos compartilhavam ensinamentos sobre a planta nativa guayusa enquanto consumiam seu chá, valorizando sua conexão com a terra e suas propriedades antioxidantes e reequilibrantes.

 

Assim, surgiu uma agroindústria comunitária que produz extrato de guayusa, atualmente empregando 12 famílias. Inicialmente, a produção era de 150 garrafas, hoje variando entre 3 mil e 5 mil por mês. O caminho foi repleto de desafios, incluindo a obtenção de apoio para entender normas sanitárias e registrar os produtos.

 

As folhas para o extrato são adquiridas de mulheres indígenas que cultivam a guayusa em sistemas agroflorestais, convivendo com mais de 150 espécies nativas. Para Esthela, a guayusa simboliza o espírito feminino, e o respeito pela sabedoria das mulheres que a produzem é fundamental. A comercialização justa da guayusa oferece incentivo real para a conservação das florestas.

 

Evento internacional destaca diversidade amazônica

 

A edição do TEDxAmazônia realizada nas cidades equatorianas de Banos e Puyo representou a primeira vez que o evento ocorreu fora do Brasil. As localidades foram escolhidas por estarem na transição entre os Andes e a Amazônia, consideradas a porta de entrada para a floresta.

 

A coorganizadora Verônica Reed observou que 40% do território amazônico está distribuído em oito países além do Brasil, ressaltando a importância da integração regional. O evento, realizado de 27 a 31 de agosto, reuniu 30 palestrantes indígenas e não indígenas envolvidos com conservação e pesquisa na Amazônia.

 

Rodrigo Cunha, organizador do TEDxAmazonia, afirmou que a principal mensagem do encontro foi um alerta sobre a urgência da situação ambiental: "Estamos em um ponto de não retorno. Estamos emitindo mais carbono do que podemos absorver. Os indígenas enfrentam violência sem precedentes. Já estamos no limite".

 

O formato do evento prevê revezamento entre países, sendo que a próxima edição está agendada para junho do ano seguinte em Belém, Pará, com expectativa de retorno ao Equador em 2028.

 

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