O programa Caminhos da Reportagem exibirá nesta segunda-feira, dia 7, às 23h30 na TV Brasil, o episódio intitulado Cidade Selvagem, Fauna Urbana, que examina a persistência e adaptação da vida selvagem frente aos impactos da crescente urbanização da cidade de São Paulo.
A produção premiada da emissora pública destaca iniciativas voltadas à recuperação e preservação das espécies de fauna e flora nativas da maior metrópole da América Latina.
Embora a presença humana tenha transformado profundamente o cenário paulistano, a capital ainda abriga vida selvagem tanto sob o asfalto quanto acima das construções. Registros históricos e nomes de localidades preservam a memória dos animais originalmente habitantes da região.
Antigos moradores indígenas atribuíam nomes às áreas utilizando como referência espécies animais, como por exemplo: M'Boi Mirim, que significa “cobra pequena”, designação associada à espécie Dormideira (Dipsas mikanii); o Rio Tamanduateí, que remete ao tamanduá-bandeira (Myrmecophaga tridactyla); e Tatuapé, cujo significado é “caminho do tatu” (Dasypus novemcinctus).
O episódio ainda revela que essa relação ancestral com os animais é mantida na Terra Indígena Jaraguá, onde residem 45 famílias Guarani que estabelecem uma convivência sustentável com o meio ambiente, mantendo ainda um profundo vínculo espiritual com as espécies locais.
A liderança tradicional da Tekoa Yvy Porã, Márcio Mendonça Boggarim, conhecido entre os Guarani como Karaí Werá Mirim, ressalta a importância das abelhas nativas sem ferrão para a cultura de sua comunidade:
"Todos os animais, para nós Guarani, são considerados sagrados. O Guarani se fortalece mentalmente por meio dessas espécies nativas, principalmente a Jataí [Melipona rufiventris]. A gente utiliza a cera, a própolis e o mel para fazer batismo e curar pessoas doentes", afirma.
O ornitólogo Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (MZUSP), comenta que a geografia da região apresentava uma transição singular entre ecossistemas:
"Tinha essa mescla de Mata Atlântica com campos naturais, tanto que a cidade, antes de chamar São Paulo, se chamava São Paulo dos Campos de Piratininga", informa.
Devido à degradação histórica das matas, surgiram iniciativas privadas para restaurar áreas nativas. Na zona sul da capital, dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Capivari-Monos, Jayme Roso reconstruiu, na década de 1960, uma região desmatada que hoje constitui a Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Sítio Curucutu.
Ele descreve: "Quando eu cheguei aqui não tinha nada. Acredito que tenha plantado umas 650 mil mudas". A filha de Jayme, Ana Roso, que administra a reserva, explica que atualmente o reflorestamento é auxiliado pelos próprios animais:
"Meu pai reflorestou no passado, mas depois a anta [Tapirus terrestris] fez o trabalho dela: ela come frutos maiores e vai dispersando as sementes, ajudando a reflorestar", contextualiza.
Segundo o Inventário da Fauna Silvestre de São Paulo, o município possui catalogadas 1.475 espécies animais, das quais 223 estão ameaçadas de extinção.
Para atender e cuidar dos animais afetados por tráfico, atropelamentos, choques elétricos e linhas de pipa com cerol, o Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (Cemacas) atua em duas unidades: no Parque do Ibirapuera e no Refúgio de Vida Silvestre Anhanguera.
O veterinário Felipe Lucato, ouvido no programa, destaca a magnitude do trabalho realizado pela instituição:
"O número anual de animais que a gente recebe é em torno de 13 mil. Na alta temporada, chegamos a receber até 2 mil animais por mês", relata.
Entretanto, nem todos os animais conseguem retornar ao ambiente natural devido a manejo inadequado ou sequelas do tráfico ilegal que inviabilizam a soltura.
A participação da sociedade tem sido fundamental na preservação da fauna por meio da ciência cidadã. A fotógrafa e educadora Paula Romano utiliza registros de insetos para gerar dados valiosos para pesquisadores através da plataforma iNaturalist.
Com mais de 24 mil postagens, Paula colaborou na descrição e no mapeamento de espécies ameaçadas. Ela destaca: "Felizmente, agora, a gente tem visto muitos pesquisadores usando esse material. A minha autoestima é lapidada a partir disso".
A observação cuidadosa dos ambientes urbanos pode transformar cenas corriqueiras em manifestações artísticas marcantes. O repórter fotográfico Paulo Pinto capturou em Santana do Livramento (RS) uma imagem de pássaros pousados em fios elétricos da cidade.
Essa imagem chamou a atenção do diretor de arte e músico Jarbas Agnelli, que percebeu uma analogia musical:
"Cinco fios é o mesmo número de linhas numa partitura. Fui pro piano e interpretei aquilo", menciona.
O resultado foi uma composição e um vídeo que alcançaram milhões de visualizações.
Quinze anos depois, Jarbas e Paulo retornaram a Santana do Livramento para realizar uma nova sinfonia, o projeto denominado Sinfonia da Energia, que reuniu também cerca de 60 fotografias de diversas partes do mundo.
Essa iniciativa contou com parceria da Agência África Creative e da Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) e recebeu o Leão de Ouro no Festival Internacional de Criatividade de Cannes.
O repórter Paulo reflete sobre as mudanças locais desde a primeira imagem: "Qual não foi nossa surpresa ao verificar que os pássaros já não estavam mais lá, porque o dono da casa que alimentava os passarinhos já tinha ido embora também. E a mãe que indicou também já não estava mais aqui. Então, diante de tudo isso, o que ficou de lição? Que nós temos que aproveitar o momento".
Em exibição desde 2008, o Caminhos da Reportagem é uma das produções jornalísticas brasileiras mais reconhecidas tanto pelo público quanto pela crítica especializada.
Ao final de 2025, o programa da TV Brasil ultrapassou a marca de 100 prêmios conquistados, ressaltando sua relevância editorial, qualidade jornalística e compromisso com reportagens aprofundadas acerca de variados temas de interesse público.
O programa vai ao ar às segundas-feiras, às 23h30, com reprise na madrugada de terça-feira, às 3h. Edições especiais estão disponíveis no site do programa e no canal da TV Brasil no YouTube.
As reportagens anteriores podem ser acessadas também pelo aplicativo TV Brasil Play, disponível para Android e iOS, além do site oficial.
A programação da TV Brasil pode ser sintonizada via canal aberto, TV por assinatura e parabólica.
Seus programas também estão disponíveis no TV Brasil Play, aplicativo gratuito para smartphones com versões para sistemas Android e iOS, além da opção de assistir pela WebTV da emissora pública.